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A saída é viver a dor, é o quebrantamento?

Conhece a declaração: “Dor é inevitável e sofrimento é opcional.”? Já leu ou ouviu isto? É mesmo verdade? Há sofrimentos evitáveis? E quanto às dores? Podemos evitar algumas delas pelo menos? Vamos pensar.

Igrejas usam como chamariz propagandas tipo “Pare de sofrer!” O líder máximo do Cristianismo, Jesus Cristo, parou de sofrer ao longo de Sua vida terrena? Não chegou a suar sangue? Ser condenado injustamente num tribunal corrupto e morrer pregado numa cruz é parar de sofrer? Outro anúncio de igrejas: “Tenha vida próspera!” A mensagem do Cristianismo é prosperidade material ou crescimento e salvação espiritual? Cristo e Seus discípulos tiveram uma vida material próspera ou morreram pobres economicamente? Já que alguns deles foram e permaneceram até o fim da vida pobres em termos de bens materiais, então não praticaram o Evangelho?

Uma frase comumente usada por pais: “Meu filho vai muito bem!” E o pai ou mãe diz isto com foco na vida financeira do filho(a) sendo o elogio feito sem considerar que talvez na vida afetiva do filho ou filha exista sofrimento. Outra frase: “Bora ser feliz! Aproveite a vida!” O que é aproveitar a vida? Passear, viajar, comer, dormir, transar, comprar mais um imóvel, juntar mais dinheiro para morrer depois? O que há na morte? Qual o sentido desta vida? O que realmente faz a pessoa feliz? Por que pessoas milionárias e famosas se suicidam e algumas destas casam, separam, casam, separaram?

Talvez você receba e-mails com propagandas assim: “Tenha ereções mais potentes!” ou “Prolongue ser orgasmo!” Ereção (com ou sem remédio sintético) produz amor? Sexo sem amor satisfaz profundamente a pessoa? Por que uma pessoa compulsiva sexualmente não se sacia com o sexo?

Estes anúncios denunciam uma mentalidade superficial de vida. Escondem, negam ou mascaram a existência de dor nesta vida a qual pode ser angústia, tristeza, medo, vergonha, culpa, timidez. Filosofias pós-modernas são superficiais, sintomáticas porque não atuam na causa do problema humano. São enganosas porque mostram um lado só da realidade da vida. Anúncios assim prometem felicidade e prosperidade numa base falsa.

Temos dores. A dor é nossa amiga. Ela é um mecanismo que avisa que algo está errado e precisa concerto. A dor no corpo anuncia que você precisa parar e avaliar o que está alterado. Talvez corrigir a alimentação, começar a praticar exercícios físicos, dormir melhor, beber água pura, ir para o campo saindo da cidade poluída. A dor na mente (ansiedade exagerada, tristeza profunda, medo excessivo) pode indicar que há conflitos entre você e você mesmo e/ou entre você e outra pessoa, que precisam ser esclarecidos, elaborados, procurando-se ativamente soluções para eles, até onde for possível.

A dor não provoca o sofrimento. A dor é para evitar o sofrimento, evitar que ele aumente, que se torne crônico e que cause um estrago maior. Sofrimento tem muito que ver com a maneira como você lida com a dor. Sofrimento depende de como seu cérebro interpreta a dor e reage a ela. Diante de uma mesma dor as pessoas reagem de forma diferente. Por exemplo, uma descobre que tem câncer e reage com pavor, pânico e depressão, e outra, mesmo sentindo medo normal de morrer, reage com otimismo, confiança, serenidade que a leva a cuidar melhor da saúde depois do diagnóstico. Uma se revolta e outra aceita.

Você pode cultivar sofrimento emocional (tristeza, melancolia, insegurança, culpa, medo) ao escolher ficar lamentando e focando sua vida nele durante tanto tempo que seu corpo acaba gerando doença psicossomática. Muitos diante de estresse emocional apresentam hipertensão, gastrite, doença autoimune, dor muscular, herpes, enxaqueca, etc.

A saída da dor é vive-la no sentido de não fugir dela e procurar entender suas causas, interpretando-a positivamente. Como assim? A dor surge no seu corpo e na sua mente porque existe algo na sua maneira de pensar, de se relacionar consigo e com outros (no passado/presente), na forma como vive as emoções (reprime demais? Não as controla, mas elas controlam você?), no tipo de alimentação, na qualidade do sono, na ausência ou presença de fé, na visão da vida, na prática ou não de ajuda ao próximo (de graça), etc.

A dor está dizendo também que esta vida não é ideal. Dinheiro, fama, poder, beleza física, força muscular, uma nova paixão, potência peniana, até mesmo a fé não eliminam a dor. Não será o quebrantamento a saída temporária da dor nesta vida? Ou seja, assumir uma postura humilde diante da sua limitação?

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Cesar Vasconcellos de Souza – médico psiquiatra

www.doutorcesar.com.br

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