Você está aqui: Capa / Artigos / Você se acostumou com uma vida familiar abusiva?

Você se acostumou com uma vida familiar abusiva?

Uma das coisas que intrigam os estudiosos, leigos ou profissionais, de assuntos sobre casamento sob o ponto de vista da dinâmica psicológica tem que ver com o por que ser comum uma pessoa se casar com alguém que tem características comportamentais desagradáveis que existia num dos seus pais (pai ou mãe).

Vamos supor que você tenha se casado com um marido passivo, ausente, voltado para o trabalho dele, e quando pensa no comportamento que seu pai tinha na família quando você era criança, vê que ele também tinha estas características. Ou você pode ter se casado com uma mulher “espaçosa”, autoritária, mandona, abusiva verbalmente, e quando abre os olhos para dar uma olhadinha em como funcionava sua família de origem, se lembra que sua mãe era assim também.

Ninguém possui características comportamentais somente más. Todos somos compostos de coisas boas e ruins em nosso jeito de ser. Isto significa que seu pai e sua mãe possuíam aspectos positivos e negativos no caráter deles. Um pai passivo pode ter mansidão, que é o contrário de alguém rude, bravo, grosso. Uma mãe mandona pode ser proativa e resolve problemas da família e da casa, ao invés de deixar que eles acumulem.

Há famílias bem mais complicadas ou disfuncionais do que outras. Uma família disfuncional é aquela em que os problemas, conflitos, desvios de boa conduta e atitudes abusivas de seus membros acontecem com frequência ou predominantemente, levando a um tipo de acostumar-se com isto de tal maneira que as crianças destas famílias desenvolvem a crença de que esta maneira ruim da família funcionar é o normal.

Quando uma criança criada num ambiente assim cresce, se torna adulta e se casa, é muito provável que no casamento dela se repita o que houve de ruim na família de origem porque parece haver uma tendência de se buscar um companheiro ou companheira que de certa forma tenha um comportamento desagradável parecido com o que o pai ou mãe tinham. Estranho esta repetição, não é? Seria mais lógico se aproximar de alguém diferente daquele jeito de ser machucador ou abusivo do pai ou mãe, não é?

Podem existir razões diferentes para esta “coincidência” de você se casar com alguém com características (boas e ruins) que seu pai e mãe possuíam. Uma delas é que você se acostumou a conviver por tantos anos durante sua infância e adolescência naquela família com aquele jeito de funcionar que acabou acreditando que aquilo é o normal, que não há maneira melhor de viver em família.

Outra razão é que os traumas psicológicos originados na família de origem podem ficar em aberto à espera de resolução no indivíduo e ele vem a se casar com alguém parecido com o negativo dos pais como busca de nova chance de encontrar a solução emocional.

E, por incrível que pareça, a atração por uma pessoa que tenha características desagradáveis que um dos pais, ou ambos, possuíam, pode ser uma oportunidade que a vida proporciona para você desenvolver o lado de sua personalidade que pode ter ficado atrofiado ou encolhido quando você precisou se fechar para se proteger dos abusos na família de origem.

Exemplo deste último caso pode ser um homem que teve uma mãe abusiva verbalmente, que gritava nervosamente com os filhos, os depreciava, e só conseguia cuidar bem dos aspectos físicos deles (levar no médico, dar comida, colocar na escola, etc.), e que veio a se casar com uma mulher também abusiva verbalmente, sem controle emocional. Se ele tem uma personalidade introvertida, possivelmente se encolheu, se fechou diante das agressões verbais da mãe. Não sabia se defender, não sabia expressar sua zanga. Daí, o casamento com alguém assim pode ser uma nova chance dele aprender, finalmente, a cuidar melhor de si, a reivindicar coisas, a colocar limites para abusos, porque agora é adulto e não mais uma criança indefesa.

Podemos olhar para os problemas da vida de forma positiva, como uma oportunidade de aprendizagem, de crescimento, ou de maneira derrotista e acomodada. Não se acostume com o sofrimento desnecessário. Lute para ser o que falta ser na sua personalidade. Se você é uma pessoa agressiva, lute para desenvolver autodomínio e deixar aparecer um possível lado manso e dócil seu, escondido sob uma capa dura, cruel, insensível. Se você é introvertido e engole muito “sapo”, lute para colocar para fora os aspectos assertivos e firmes dentro da convicção da verdade que a experiência de vida lhe tem ensinado.

_______

Cesar Vasconcellos de Souza

www.doutorcesar.com.br

 

 

Sobre Cesar Vasconcellos de Souza

Os comentários estão fechados.

Scroll To Top